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Cruz e Souza

Cruz e Souza – um dos representantes da era simbolista

João da Cruz e Souza nasceu em 1861 na cidade de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis. Filho de Guilherme e de Carolina Eva da Conceição, ambos escravos alforriados, teve uma ótima criação, visto que seus pais adotivos, ex-proprietários de seus pais biológicos, deram-lhe uma refinada educação. Estudou no Ateneu Provincial Catarinense, onde pôde contar com a instrução dos melhores professores que sempre o consideraram um aluno de “brilho raro”, estudando latim, grego, francês e inglês. Com a morte de seus pais adotivos, passou a lecionar no Colégio Ateneu. Em 1881 passou a dirigir, juntamente com Virgílio Várzea, a Tribuna Popular, um jornal abolicionista. Quando começou a ganhar notoriedade no cenário cultural, passou a sofrer com os mais variados tipos de preconceito, por ser negro.

Em 1883 foi nomeado promotor público de Laguna, onde mais uma vez foi impedido de assumir tal cargo em razão de sua cor. Transferindo-se para o Rio de Janeiro, tentou sobreviver como jornalista e, mais uma vez vítima de preconceito, apenas conseguiu emprego na Estrada de Ferro Central do Brasil, ocupando modesta função. Casou-se em 1893 com Gavita Gonçalves, também negra, com quem teve quatro filhos. Em dezembro de 1897 foi acometido por uma tuberculose, indo então para Minas Gerais à procura de um clima melhor que pudesse amenizar seu estado de saúde, uma vez bastante agravado. Faleceu lá mesmo, em 1898, com 37 anos.

Antes de ressaltarmos as características que tanto nortearam a trajetória poética desse autor, devemos nos ater ao contexto histórico-social então vigente. O final do século XIX foi demarcado pela segunda fase da Revolução Industrial, pelo surgimento de novas formas de organização capitalista de produção e pelo grande avanço técnico e científico (principalmente pela propagação das correntes filosóficas, como Positivismo, Evolucionismo e Determinismo). Contudo, com o passar do tempo, o artista, presenciando o enfraquecimento de todo esse poder, sentindo-se à margem dos acontecimentos, resolve novamente se refugiar num clima de insatisfação, dando vazão à melancolia e ao tédio, como formas de escapar da própria realidade.     

Entretanto, podemos afirmar que tal sentimento foi além do que os românticos se propuseram, uma vez que o subjetivismo por eles propagado era levado às últimas consequências, manifestado como uma espécie de transcendentalismo do próprio “eu”. Foi exatamente nesse clima de hostilidade que Cruz e Souza inaugurou a era simbolista, com suas obras Missal e Broquéis, ambas publicadas em 1893. Materializando as características da era em questão, a poesia de Cruz e Souza é demarcada por um clima de misticismo, pelo desejo de transcendência, pela espiritualidade. Somados a essas características também se ecoam vultos de uma notória angústia, de um extremo pessimismo e de um evidente conflito entre a matéria e o espírito – daí o gosto pelas imagens luminosas, vagas e brancas como forma de apaziguamento das inquietudes advindas do próprio estado anímico (da alma).

Mediante tais elucidações, vejamos agora alguns fragmentos de uma das criações desse poeta, intitulada “Vilões que choram”:

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento...
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,
Noites da solidão, noites remotas
Que nos azuis da Fantasia bordo,
Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações a luz da lua,
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos Nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram,
Gemidos, prantos, que no espaço morrem...

E sons soturnos, suspiradas magoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

[...]

Constatamos que uma das características que mais prevalecem na obra é a linguagem evocativa – fruto de uma forte influência de Charles Baudelaire, por meio da Teoria das Correspondências, a qual revelava que todas as coisas mantinham entre si uma correspondência e que esta era revelada através de símbolos, resultando daí o emprego da sinestesia, representando uma figura de linguagem na qual se percebe a fusão dos diversos órgãos do sentido, como bem podemos conferir em:

Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos Nervosos e ágeis que percorrem
(tato)
Cordas e um mundo de dolências geram,
Gemidos, prantos, que no espaço morrem...
(audição)


Por Vânia Maria do Nascimento Duarte
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